ORIGEM CIENTÍFICA DA AYAHUASCA


Se um Xamã encontra um cipó selvagem na floresta, ele prepara uma bebida para determinar o seu valor para a inclusão em seu próprio “repertório”, especialmente em relação aos estados transcendentais que pode induzir, considerando que cada planta tem uma linhagem que a liga através de todos os tempos a todas as outras . Estas classificações são conforme critérios dos efeitos Xamânicos e os tipos de percepções produzidas. 

Os Xamã podem identificar diferentes tipos de vegetais inclusive à distância, e, são capazes de utilizar para preparar medicinas de forças diferentes, para diferentes propósitos, ou em conexão com diferentes cerimônias ou necessidades transcendentais.  Tais distinções são feitas de variedades e linhagens e os efeitos das plantas de mistura. 

O primeiro cientista a estudar a Ayahuasca foi o Etnobotânico Richard Evans Schultes, o “pai da Etnobotânica moderna” tendo observado que os povos muito distantes do Amazonas usam a mesma vinha contida nos relatos das primeiras observações escritas dos padres jesuítas em 1700 acerca da videira ou liana, e, muitos exploradores, viajantes, antropólogos e botânicos também referiam-se a preparados a partir deste cipó da floresta.  

Em 1972 Marlene Dobkin de Rios no seu livro Visionary Vine resumiu a definição unânime da Ayahuasca até a década de 1980, na qual, os antropólogos que escreveram sobre Ayahuasca definiam-na como Banisteriopsis caapi, ou como vinha do gênero Banisteriopsis.  

Nos livros, a entrada de índice para "Ayahuasca" ou "Yagé" dizia, "ver Banisteriopsis caapi". Referiam-se à Ayahuasca como uma das duas espécies de uma Vinha sul-americana: Banisteriopsis caapi ou Banisteriopsis inebrians. 

Em seus estudos, Schultes identificou que as tribos ocasionalmente adicionam outras plantas à Vinha. As mais utilizadas são as folhas de uma outra espécie de Vinha, a Banisteriopsisrusbyana, atualmente reclassificada como Diploptrerys cabrerana. 

Como vimos, este "aditivo" não é adicionados para aumentar o efeito do cipó da Ayahuasca, ao contrário, ele é misturado formando Ayahuasca a fim de que o cipó, ao eliminar a dualidade e ensejar o estado meditativo, permita a quem bebe a Ayahuasca assimilar os efeitos da planta adicionada, de modo que o cipó da Ayahuasca tem um papel tradicional de apoio para a outra planta medicinal que com ele forma a Ayahuasca. 

Já na Amazônia brasileira, Colômbia, Equador e Peru, as folhas das diversas espécies de Psychotria, principalmente a Psychotria viridis (arbusto pertencente à família do café rubioceae), ocasionalmente são adicionados. 

Utilizam ainda a Cabrerana diplopterys (conhecida entre eles como Chakruna), a planta mais conhecida como Chaliponga ou Chagroponga, bem como outras espécies de Psychotria como a Amiruka, e, às vezes a Ilex guayusa. 

Em 1984 Terence McKenna popularizou a ideia de que o papel da Banisteriopsis caapi através da Ayahuasca é tornar o DMT ativo por via oral, inibindo sistemas enzimáticos no corpo, evitando que haja neutralização da Ayahuasca pelas enzimas gástricas. 

Desde então no mundo ocidental a Ayahuasca passou então a ser a combinação de e Banisteriopsis caapi e uma planta contendo DMT ativo por via oral, definição de 1984 por Luís Eduardo Luna após passar um período de estudos com Terence McKenna antes de iniciar seu trabalho de campo. Os antropólogos adotaram essa definição e filtraram suas observações através dele. 

Surgiu então um hiato entre a percepção Xamânica e o posicionamento científico em relação à Ayahuasca, posto que, entre os sábios da natureza (Xamã) é a videira, a Ayahuasca (e não a folha adicionada) que é classificada de acordo com o tipo de percepção e efeito induzido, e, portanto, é a Videira que é a Ayahuasca. Mas, para a os sábios ocidentais (cientistas) a videira não possui princípio ativo (DMT), que, entendem ser o importante da Ayahuasca.  

O posicionamento científico deu origem a um mistério, pois, os Cientistas identificaram que as folhas utilizadas isoladamente não possuem DMT, e, não sabem explicar como os povos indígenas descobriram a forma de criar os preparos da Ayahuasca com plantas que isoladamente a seu ver não têm efeitos, não possuem uma quantidade suficiente de DMT. 

Todavia, ainda que não possuam a quantidade esperada de DMT oral, todo vegetal possui um poder, um efeito intrínseco, que os Xamãs da Ayahuasca são conhecedores como já explicamos no capítulo anterior.  

Diante disso, neste meu estudo eu suponho que o DMT que é liberado pela Ayahuasca no corpo humano é proveniente da própria glândula pineal daquele que a bebe, de modo que o efeito da Ayahuasca não é o de adicionar DMT ao corpo humano, mas, sim, o de inibir os sistemas enzimáticos gástricos no corpo que neutralizam o DMT naturalmente produzido pela glândula pineal que são responsáveis por manter o estado padrão de consciência e evitar o constante estado meditativo quando o DMT entra na corrente sanguínea. 

A Ayahuasca age como um catalizador do Estado meditativo ao fazer com que o DMT natural possa fluir sem o bloqueio da neutralização das enzimas inibidoras desde a glândula pineal para toda a corrente sanguínea, estabelecendo-se, assim, o estado meditativo. 

O Neurocientista Antônio D'Amasio já descobriu que a Ayahuasca hiperativa altamente a área do cérebro que nos faz perceber, raciocinar e tomar decisões (o neocórtex), a região cerebral onde são armazenadas as memórias emocionais, especificamente as mais traumáticas ou significativas (a amígdala) e a região onde se cria a ponte entre nossos impulsos emocionais e nossa capacidade de tomada de decisão, onde a sabedoria é mediada (a ínsula). 

De acordo com muitos neurocientistas nosso processo de tomada de decisão tem um poderoso componente emocional pelo papel da ínsula na área em que estados sentimentais são gerados, pois, quando qualquer estímulo entra no cérebro, ele tenta entendê-lo baseado em experiências anteriores, e, desde que nascemos, as experiências traumáticas criam uma impressão no cérebro, de modo que este padrão é como um atalho que é ativado toda vez que enfrentamos uma situação similar e há necessidade de decidir como agir. 

Por exemplo, se uma vez fomos atacados, nosso cérebro pode fortalecer o conjunto das vias que associam aquele agente com todos os outros, fazendo temê-los em geral. Nós podemos mesmo reagir negativamente a uma referência distante. Eventos repetidos causam estes padrões neurais que reforçam estas conexões ligando-as com proteínas e construindo-as como uma cicatriz.  

A Ayahuasca afeta esses padrões enraizados, hiperativa a região inteira do cérebro onde guardamos e processamos a memória emocional, habilitando a parte consciente e substitui temporariamente padrões anteriormente entrincheirados, permitindo que novas conexões sejam feitas. 

Assim que estas novas conexões são criadas as memórias são reavaliadas. A Ayahuasca faz com que emerjam novas perspectivas de experiências passadas e de padrões de comportamento profundamente enraizados, vez que em estado meditativo através da Ayahuasca compreendem com a mente consciente o que estava no subconsciente, e, são capazes de ressignificar os eventos e reencontrar o equilíbrio.