MEDITAÇÃO
O que é meditação.
A palavra meditação tem origem no latim meditare, que significa “voltar-se para o centro”. Meditar é observar sem divisão, sem o “eu” que é a essência das experiências do passado que geram a dualidade e anseios. Uma observação sem este “eu” é meditação.
Há muitos sistemas com métodos e técnicas que propõem a meditação, mas, respeitosamente, urge salientar que não existem práticas para se livrar do “eu”, justamente porque todas elas enfatizam esse “eu”.
Não há como através de uma prática negar a prática; através da prática não se erradica o resultado da mesma que ainda é o “eu”. Em um ciclo sem fim, isso mantêm a pessoa presa e longe da meditação e da realidade, porque a realidade não é uma experiência individual.
Nas técnicas de meditação preconizadas pelos sistemas meditativos o indivíduo está identificado consigo e concentrado em aplicar uma técnica, de modo que está em uma experienciação individual, e, portanto, não está em meditação, que, é justamente olhar sem este “eu”, observar sem qualquer divisão, pois divisão implica observar, estar em posição separada do todo, dualidade.
Meditar não é observar separado do que está sendo observado, meditar é mirar em totalidade, quando não existe mais observador e observado.
Quando observamos em totalidade existe ordem, não a ordem que o intelecto cria mas, sim, a ordem da ausência de divisão entre observador e observado, pois, são um apenas.
A ordem surge da ausência do “eu individualizado” porque quando, do contrário, existe um “eu individualizado” tentando meditar através de uma técnica o meditador foca em aplicar uma técnica e se põe separado do todo, surgindo neste momento um observador e algo observado.
No momento em que o observado não se mantiver dentro de um padrão esperado pelo observador criar-se-á a desordem entre o observador e o observado, porque, estando separados, surge a dualidade entre a ordem e a desordem, o observador e o observado.
Consequentemente, a meditação não é uma busca por experiências ou realizações pessoais, é um estado da mente no qual o “eu individualizado” está ausente, e, através desta ausência a ordem é gerada, porque enquanto se mantém dentro de um padrão cria-se a desordem no mundo, a dualidade entre o que é ordem e o que é desordem.
Somente quando a mente está completamente silenciosa, sem a memória e sem o tempo, é possível observar sem o “eu”. Isto porque a memória é o centro do “eu”, e, o tempo é este próprio “eu”, a evolução deste “eu”.
Portanto, não há como ficar em silêncio com as práticas que se desenvolvem a partir do “eu”, que usam a memória, a percepção do tempo, e, mantêm a dualidade entre “observador” e “observado”. O “eu” individualizado do todo, em uma postura de observador com suas memórias e a sua estrutura de tempo, observando algo separado de si, observa uma desordem que não existe.
A quietude não é algo que se possa adquirir através de uma prática, pois, ela somente aparecerá naturalmente quando houver ordem (o que por sua vez só acontece quando não há a divisão entre “eu” e “todo”).
É na qualidade de inexistência de “eu” que existe a total quietude da mente meditativa, em ordem completa porque mira em totalidade, sem os limites das memórias, do tempo nem da dualidade do “eu”, torna-se silenciosa e dinâmica, ante a ausência de refreamentos.
A mente que busca por algo idealizado só encontra desordem porque não consegue encaixar suas expectativas na realidade, e, o esforço para obter este encaixe e gerar a ordem leva à desordem, à dualidade.
Esta dificuldade surge porque não está em estado meditativo, não percebe totalmente sem qualquer divisão, pois, parte da ideia de que há uma ordem que está observando desordem, de que há dualidade.
Onde existe um “eu” olhando existe desordem, porque existe ali uma divisão, que gera antagonismo, e cria desarmonia. Observar totalmente sem divisão é meditação.
Existem muitos sistemas, métodos e técnicas de meditação, e, nelas as experiências pessoais têm tido um enorme peso, de modo que as pessoas têm buscado experiências pessoais e não a realidade, não a meditação.
Ressalte-se que se é uma experiência pessoal de alguém, então, tem pouca validade no que diz respeito à verdade, pois, referida experiência é uma projeção do universo interno pessoal buscando alcançar algo.
Ainda que atinja este algo, não é a verdade, pois, a verdade não é algo que se experiencia individualmente ou que progride com práticas; se fosse, a verdade seria uma experiência pessoal, mas, a verdade é coletiva e engloba tudo.
Na experiência pessoal existe a divisão entre o “eu” e o que é experienciado, e, ainda que ele a identifique como a verdade, ainda haverá uma divisão entre ele e o todo, ocultando a verdade. Então, negar as experiências pessoais é negar o “eu” que é a essência de todas as experiências que são o passado e não a verdade constante.
Se verdadeiramente colocarmos de lado todas as experiências pessoais dos seres humanos com todos os seus sistemas, métodos e práticas, chega-se à qualidade da mente que não está mais presa na matriz das experiências, que entende a parcialidade da experiência pessoal, que, não tem lugar na meditação.
A meditação não é algo praticado diariamente dentro do ajustamento a um padrão imitado, uma técnica, pois, a conformidade a um método ou sistema não pode levar à verdade.
O que os mestres podem fazer é apenas apontar e ajudar a pessoa a ir até a porta, mas, só ela pode abrir.
A meditação não é um problema, nem uma forma de escapar dos problemas ou evitar a realidade. É a compreensão em totalidade do que considerávamos ser problema apenas por estarmos em uma posição de observador dual diante do todo.
Não devemos meditar porque é algo que deve ser feito, isso tornaria a meditação um problema, algo a resolver, pois, se dependermos de algo a fazer ou alguém a nos ensinar entramos num estado de ansiedade permanente.
E isso não é recomendável, pois, o ser humano deve gerar ordem na casa que é o “eu” permanentemente, mas, isso não se faz buscando a ordem, ou perguntando a alguém onde ela está, mas, sim, compreendendo porque consideramos algo desordem, e, onde ela está dentro da casa que é o “eu”.
E, como não é possível usar apenas a intelectualidade para resolver um problema do intelecto, é preciso mirar de forma total, além do intelecto, o que no senso comum é denominado meditação.
Primeiro compreender completamente aquilo que se percebe como desordem, e não tentar resolvê-la com o intelecto conforme uma ideia pré estabelecida do que é ordem. Se apenas apreender completamente o que entende como desordem e parar de tentar encaixá-la dentro de um padrão do que entende ser a ordem a dualidade cessa e a desordem se desfaz.
Perceber-se separado do que chama de desordem, já é desordem.
Não devemos observar a desordem com o olhar de “eu” do alto de todos seus conceitos, mas, sim, olhar do mesmo nível sem este “eu”, de modo que somente assim a desordem da dualidade desaparece, e, isso é meditação. Estar em estado meditativo é estar sem divisão, sem o “eu”, unido ao Todo.
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